A gestação representa um período único e especial na vida da mulher, no qual a sensação de tornar-se mãe confunde-se muitas vezes com incertezas, medos e insegurança. Esse fato aflora especialmente no que se relaciona ao momento do parto (TEDESCO et al., 2004).
O parto é um momento muito importante, cheio de sensibilidade e emoção, que marca uma mudança profunda na vida da mulher e da família. É quando se estabelece o primeiro encontro entre a mãe e o seu bebê (PARTO..., 2008).
A escolha do tipo de parto pela gestante é um assunto atual, complexo e polêmico, que não se deve apenas as questões médicas, sendo influenciadas também por aspectos socioeconômicos, preocupações ético-legais e mesmo por características psicológicas e culturais das pacientes e dos médicos (FAISAL-CURRY; MENEZES, 2006).
No modelo intervencionista de assistência obstétrica, a mulher torna-se o objeto da ação, perdendo o controle e a decisão sobre o próprio processo do parto e nascimento. A autonomia da mulher no momento do parto está vinculada à sua inclusão na decisão sobre a via de parto, isso ocorre à medida em que ela é informada a respeito das evidências científicas disponíveis para indicação da melhor conduta na situação determinada (OLIVEIRA et al.,2002).
Amu et al. (apud TEDESCO et al., 2004) acreditam que a escolha materna é direito humano fundamental, mas a gestante necessitaria de mais informações. Besio (apud TEDESCO et al., 2004) compartilha desta afirmação. No entanto, mesmo acreditando que a escolha materna reflita autonomia, afirma que a mesma não deva se sobrepor a critério clínico médico, quando este sabe qual via de parto é a melhor para a mulher.
A cesariana é uma intervenção cirúrgica que possibilita que o bebê seja retirado do útero materno em vez de nascer naturalmente, passando pelo colo do útero e vagina (QUEIROZ et al., 2005). É uma alternativa médica que deveria ser usada em situações em que as condições materno-fetais não favoreçam o parto vaginal (CARNIEL; ZANOLLI; MORCILLO, 2006).
Os percentuais de parto cesáreo aumentaram em diversos países, atingindo 26% nos EUA; 21,3% na Inglaterra; 23,9% na Irlanda do Norte e 19% no Canadá. Na América do Sul, estudo ecológico mostra que em 12 países, que juntos representam 81% dos partos da região, os índices de cesarianas são muito superiores aos 15% preconizados pela Organização Mundial de saúde (OMS) (FAISAL-CURRY; MENEZES, 2006).
O nascimento por cesariana tornou-se tão comum e disseminado que a possibilidade de ter um parto normal deixou de ser uma prática corrente em muitas maternidades (OLIVEIRA et al., 2002).
Nos últimos anos, o Brasil vem apresentando uma alarmante escalada dos índices de cesarianas, uma das maiores taxas do mundo, constituindo um verdadeiro problema de saúde pública. Estima-se, atualmente, que no país mais de 40% dos partos sejam realizados por via alta, podendo exceder 80% em algumas regiões, sobretudo nos hospitais particulares (SANTOS et al., 1998).
Em 1997, a incidência de cesárea no Brasil chegou a 36,4%; e em 27,1%, em 1999 (TEDESCO et al., 2004). De acordo com os dados do DATASUS, essa incidência só aumentou. Em 2003, a proporção de cesárea no Brasil era de 64,30%; em 2004 de 79,19%, chegando, em 2005, a 77,50%.
Em relação aos partos cobertos pelos planos de saúde, a situação é mais alarmante, demonstrando que a proporção de cesariana situa-se em torno de 80% (BRASIL, s/d)
Porém, para Cecatti (apud TEDESCO et al., 2004), mesmo com grande índice de cesárea, o Brasil pode comemorar a perda do recorde dessas cirurgias para o Chile, creditando tal vitória à medida adotada pelo Ministério da Saúde, que fixou, há aproximadamente seis anos, o limite de 40% nas cesarianas feitas pelo SUS em cada região, deixando de pagar a conta hospitalar do excedente.
São vários os fatores que podem indicar a necessidade de uma cesariana, tais como apresentações anômalas (apresentação pélvica ou crônica) ou quando a mãe apresenta doença sexualmente transmissível, como a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) e alguns casos de Papiloma Vírus Humano (HPV), sofrimento fetal intra-uterino, desproporção céfalo-pélvica ou ainda outros motivos, a exemplo de descolamento prematuro de placenta, placenta prévia, síndrome de HELLP, dentre outros que venham a complicar o bom andamento do parto (SILVA et al., 2005)
Há diversos critérios técnicos que indicam o parto cesáreo, no entanto, somente esses não são suficientes para justificar as altas taxas. No Brasil, como em outros países, diversos estudos têm mostrado associação entre o parto cesáreo e outros fatores não-clínicos, como os socioeconômicos (alta escolaridade materna, maior poder econômico e seguro de saúde privado), os relacionados às características demográficas e reprodutivas (idade materna, primiparidade, cesárea prévia) e os relacionados aos serviços de saúde (maior freqüência ao pré-natal, nos partos realizados em serviços privados, por conveniência médica e por cesárea solicitada) (CARNIEL; ZANOLLI; MORCILLO, 2006).
Tedesco et al. (2004) acrescentam ainda que o pensamento por parte da mulher de que este tipo de parto é indolor, preserva a anatomia da vagina para as relações sexuais e a falta de acesso da população à informação sobre os riscos das cirurgias obstétricas contribuem de forma significantiva para a alarmante taxa de cesárea.
Se a indicação correta de cesárea traz vantagens, sua indicação indiscriminada, sem critérios, envolve riscos adicionais para mães e recém-nascidos. Como qualquer outra cirurgia, essa não está isenta de complicações anestésicas e de acidentes operatórios, além de problemas que podem incidir nos cuidados com os recém-nascidos devido à fragilidade física que acarreta, assim como a interferência nas relações mãe-filho (CLAP; RESENDE, apud MORAES; GOLDENBERG, 2001).
Santos et al (1998) ressaltam ainda que a morbimortalidade na cesárea ultrapassa consideravelmente a do parto transpélvico, com aumento do risco de morte materna variando de 2 a 6 vezes, além de sérias complicações, como infecção puerperal, onde o risco é de 8 a 20 vezes maior, a hemorragia, e as embolias.
Na intenção de diminuir o alto número de cesarianas desnecessárias realizadas anualmente no Brasil, o Ministério da Saúde lançou, em 11 de maio de 2008, uma campanha para incentivar as mulheres a fazerem parto normal. No lançamento da campanha, o ministro José Gomes Temporão enfatizou que o Sistema Único de Saúde (SUS) está estudando como remunerar melhor os médicos pelo parto normal, para que o fator econômico não seja empecilho para este tipo de procedimento (CAMPANHA, 2008).
Assim, a cesárea é um recurso que permite realizar o parto de maneira satisfatória, quando a vida da mãe ou da criança esteja correndo algum risco. Neste sentido, a cesariana é um ótimo recurso disponível para proteger, ao mesmo tempo, a saúde da mãe e da criança, permitindo um parto sem maiores complicações (SILVA et al., 2005).
A orientação à mãe durante o pré-natal quanto ao tipo de parto deve fazer parte da assistência, possibilitando, assim, que a mãe tenha maior controle sobre o próprio parto, com direito à opção fundamentada na “escolha informada”. Nesse sentido, o diálogo entre o profissional de saúde e parturiente é a base do que se denomina “aliança terapêutica”, considerada como uma troca ou negociação para garantir maiores benefícios na assistência (OLIVEIRA et al., 2002).
Postado por Dayse Coêlho
Trecho do artigo científico:"Quem são as mulheres brasileiras que fazem parto cesáreo?"(Autora:Dayse Coêlho)
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
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